Setembro Amarelo é o mês voltado para à prevenção do suicídio. Neste contexto, a entrevista do Fala Você Notícias desta quinta-feira (22), foi com a psicóloga clínica Maria de Lourdes. Ela falou sobre quais são os sinais de alerta mais comuns do suicídio.
Segundo a psicóloga, um ato do suicida é um ato de desespero, no qual a pessoa sente a necessidade de matar uma dor que se encontra dentro dela, ou seja, a pessoa pensa não necessariamente em tirar a sua própria vida, mas sim uma dor que tanto lhe angustia e tira a sua sanidade mental. No entanto, Maria de Lourdes esclarece que o ato do suicídio não é cometido apenas por causa de um motivo específico, mas sim trata-se de um ato multifatorial: “Ela já vinha tendo outros sinais; ela já tinha outras questões que não estavam legais no dia-a-dia dela e que talvez aquele momento é que ela desiste de viver”, pontuou. Maria de Lourdes afirmou que os fatores podem ser psicológicos, biológicos, genéticos, culturais e socioambientais. Junto ao comportamento suicida está o pensamento, os planos e a execução, que é a tentativa de suicídio.
A especialista explica que uma pessoa que pensa em tirar a sua própria vida faz distorções da realidade e começa a ver a realidade de uma forma diferente das pessoas que não estão tendo o mesmo sofrimento suicida: “Ela começa a ter uma visão negativa de si mesma, dos outros e do futuro. E, consequentemente, aparece um medo irracional, uma preocupação excessiva. O passado e o presente irão reforçar o seu sofrimento e este futuro, para ela, é como se não existisse, porque ela não consegue visualizar o futuro, o que ela vê é a angústia que ela já viveu e que ela está vivendo no presente e que, quando ela desiste, ela não tem planos pra o futuro”, disse.
Características psicopatológicas de pessoas com comportamentos suicidas
Em relação às características psicopatológicas nas pessoas que têm comportamento suicida, Maria de Lourdes listou três: O primeiro diz respeito à ambivalência, que é o desejo de viver e o desejo de morrer ao mesmo tempo, já que, por vezes, a pessoa pensa em acabar com a dor que a faz sofrer, por meio do suicídio, e há momentos em que ela tem vontade de viver, porque tem pessoas que ela ama e porque a vida, em alguns momentos, é boa. Ainda ela, detalha que é nestes momentos de ambivalência que há a possibilidade de prevenção do suicídio. A segunda é a impulsividade, que não ocorre o tempo inteiro, mas que oscila, com o aparecimento da crise que surge, dura alguns minutos e some. No impulso do ato suicida, a pessoa quer tirar a própria vida, porque ela acredita que, com a morte, ela irá retirar a dor, porém, refere-se a uma dor simbólica e não a vida em si. Mas, ao ter uma percepção distorcida da realidade, ela acredita que, se ela tirar a sua própria vida, irá aliviar a dor. Sendo assim, no ato de impulso a pessoa pode cometer o ato suicida. O impulso sentido costuma durar pouco tempo, minutos ou até mesmo uma hora. Desta forma, por durar pouco tempo, se no ato da impulsividade a pessoa pede ajuda, é possível a prevenção do suicídio. A terceira característica é a rigidez, a pessoa tem o pensamento de tudo ou nada, ao pensar que ela deve tirar a dor ou ela não vive. Assim, a pessoa fica com pensamentos, sentimentos e ações restritos, a pessoa fica incapaz de enxergar que pode existir uma solução para aquele determinado problema.
Como funciona a mente de uma pessoa que pensa em se suicidar?
O funcionamento mental da pessoa com comportamento suicida gira em torno de quatro sentimentos, que é chamado de quatro D: O primeiro sentimento é o de depressão, que é caracterizado por uma tristeza constante; o segundo é a desesperança: ocorre quando a pessoa começa a apresentar falta de esperança. O terceiro é o sentimento de desamparo, que acontece quando a pessoa se sente sozinha o tempo inteiro, mesmo estando rodeada de pessoas que a amam e que lhe querem ajudar. Dentre as frases de alerta que são comuns advindas de pessoas que estão com o sentimento de desamparo, estão: “Vou deixar você em paz”, “eu não posso fazer nada”, “os outros irão ser felizes sem mim”. O quarto é o desespero, que acontece quando, nos momentos em que a dor sentida pela pessoa não passa, a pessoa tem a sensação de que o que ela está vivendo não tem saída, e a pessoa começa a expressar pensamentos de que irá desaparecer e de que queria poder dormir e nunca mais acordar.
A psicóloga clínica enfatiza que é comprovado cientificamente que deixar de falar sobre o suicídio e sobre a dor à qual a pessoa com comportamento suicida está sentindo não evita que ele aconteça. O contrário disso, previne em mais de 90% os casos de suicídio. Porque quando a pessoa fala, ela consegue receber suporte de outras pessoas, fazendo com que ela desista do suicídio.
Maria de Lourdes falou sobre a importância do CVV (Centro de Valorização da Vida) nos momentos em que a pessoa tem o sentimento de impulsividade para tirar a sua própria vida. Trata-se de uma instituição que realiza apoio emocional de combate ao suicídio, que funciona em todo o Brasil, 24 horas, na modalidade on-line por meio do chat via e-mail ou através da ligação telefônica para o número 188 de forma gratuita. Ao conversar com uma atendente do CVV, o individuo conversará com um dos colaboradores do Centro, que tem o treinamento específico para ajudar a pessoa a se controlar no momento de impulso, a dar para ela o apoio emocional necessário, para que a pessoa desista de se suicidar. Além disso, ela citou alguns fatores de prevenção, como: buscar ter uma estima elevada; ter um suporte familiar e também amigos; ter uma religiosidade, algo que proporciona à pessoa uma perspectiva de vida; estar empregado; ter crianças em casa; capacidade de adaptação positiva (ao tentar fazer a pessoa relembrar acontecimentos do passado que foram difíceis, mas que ela conseguiu superar, desta forma, ajudando a manter um pensamento de positividade em relação às situações negativas); ter acesso à serviços de saúde que possam ajudar a pessoa a curar transtornos mentais que, inclusive, são também uns dos principais fatores de risco para o suicídio.
Dê um clique no áudio ou no vídeo e se acerque sobre os sinais de alerta de que uma pessoa está com pensamentos suicidas; principais fatores referentes à pessoa que pensa em se suicidar; como se comunicar com uma pessoa que tem pensamentos suicidas. E confira também dúvidas dos ouvintes esclarecidas pela Psicóloga Maria de Lourdes.

Assista o áudio da entrevista:
Assista o vídeo da entrevista:
Edição: Dani Rodrigues (MTBE 6757) e Neide Lu (MTBE 6466), Portal Fala Você Notícias