No Fala Você Notícias desta sexta-feira (14) recebemos Daniel Neres, psicólogo clínico da abordagem Atenção Centrada na Pessoa (ACP), linha humanista. Ele falou sobre padronização facial, corporal e financeira nas redes sociais.
De acordo com Daniel Neres, estamos passando por uma fase pós-pandemia. Ele relata que, durante a pandemia, tivemos que ficar muito mais tempo em casa. Foi preciso nos reinventar, e foi neste contexto que as redes sociais entraram em ação: “As redes sociais já existiam antes, mas o acesso não era tão intenso como se deu ao longo deste período. Em 2010, cerca de um sétimo da população tinha acesso à internet. Em 2019, que foi o ano em que a pandemia se instaurou, saltou para um terço da população no Brasil com acesso à internet. Então, já que não poderíamos sair, já que não poderíamos ter contato, teríamos que criar algo para nos satisfazer, para gerar um certo conforto”, disse.
Ainda ele cita que justamente neste período enxergamos os nossos defeitos, as nossas faltas e projetamos isto nas redes sociais ao inverso, pois, precisamos mostrar o que não temos para que as pessoas vejam. As pessoas estão o tempo todo mostrando um estilo de vida nas redes sociais. Ao entrar no Instagram, ou em qualquer outra rede social, vemos muita gente muito bem sucedida, muita gente bonita, sorrindo, vivendo feliz… Por sermos seres errôneos, temos sempre um vazio no peito, e sentimos a falta de algo. E por ver nas redes sociais todos sempre satisfeitos e 100%, sentimos que não somos bons o suficiente. Neste sentido, há uma necessidade de estar o tempo todo se mostrando, com filtros, e maquiando a realidade, ao revelar apenas a parte boa da vida e escondendo a parte ruim.
Ao ser questionado pela Jornalista Neide Lu, se ajudou ou piorou o ser humano na individualidade em uma vida destroçada e a busca pela construção da felicidade movida pela superação pós pandemia, em resposta, Daniel disse que piorou, porque a padronização quer dizer estar em uma corrida para ser igual ao outro: “Só que, nós somos seres subjetivos. Desde o momento em que a gente está sendo gerado na barriga, a gente tem um sentido na vida, já temos o rosa ou o azul para vestir, já temos um nome, talvez o padrinho que vai nos batizar, ou, os pais desejam o que você vai ser. A partir daí você vai se constituindo como pessoa; você está no meio de uma sociedade. A sociedade, ela vai te influenciar muito, para você olhar, identificar, sentir com relação àquela coisa que você está olhando e dá um significado próprio para aquilo. Na medida em que a sociedade te influencia, você influencia a sociedade. Você passa para ela também uma contribuição”, falou.
Ele também cita que duas pessoas vivendo em uma sociedade irão olhar e interpretar as coisas de forma única, e continuar sendo diferentes. Mas que, quando vamos para as redes sociais, queremos ser iguais ao outro, mas que sempre seremos pessoas diferentes. A ponto de não agradarmos a todos, justamente porque somos diferentes.
Na padronização facial e financeira, é preciso se ostentar nas redes sociais, é preciso mostrar que tem dinheiro, mostrar que tem um iphone, por exemplo, são coisas que elevam o ego do ser humano. É utilizado também um filtro para mostrar uma pele perfeita, sem nenhum defeito. Fora das redes sociais, esta busca pela perfeição acontece nas clínicas de estética, ao utilizar um botox, harmonização facial ou utilização de facetas, e assim, todos vão ganhando um formato de rostos padronizados. Desta forma, cria-se a ilusão de que irão alcançar a satisfação, mas, na verdade, o vazio continuará existindo.
Segundo o psicólogo, os personagens das redes sociais influenciam o desejo das pessoas de se tornarem alguém igual. Ele relata que os influencers que têm milhões de seguidores, geram no indivíduo a vontade de querer ser igual a eles. Visto isto, os seguidores passam a se divulgar nas redes sociais e a se mostrar. Cada vez que se divulgam, liberam hormônios do prazer e se sentem mais satisfeitos. A satisfação é sentida momentaneamente e, com isto, a pessoa procura cada vez mais se aparecer nas redes sociais para continuar sentindo o prazer. A dopamina é um hormônio do prazer liberado na medida em que a pessoa ganha um like nas redes sociais ou que consegue um comentário positivo.
O psicólogo afirma que estudos comprovam que o vício causado pelas redes sociais é exatamente o mesmo causado pelas drogas químicas. Justamente, porque, no momento em que o usuário está na rede social se mostrando, ele vai tendo picos de dopamina, picos de hormônios do prazer. Com isto, vai gerando prejuízos para a pessoa. Dentre os prejuízos, ele destacou a falta de concentração. Como tudo é produzido de forma rápida nas redes sociais, com o tempo, a pessoa vai perdendo a concentração e a paciência para ler um livro, assistir um filme longo, raciocinar em relação ao que está lendo, por exemplo. O esquecimento e a perda da cognição, em si, também é um dos prejuízos causados pelo vício nas redes sociais e principalmente com conteúdos irrelevantes.
Contudo, ele orienta que é necessário observar o tempo de uso das redes sociais e também com o que está se dedicando nela. O ideal é afastar aos poucos para que o cérebro consiga se adaptar à falta das redes sociais. Colocar o celular no silencioso e desativar as notificações de grupos pode ser também uma boa alternativa para ir se distanciando aos poucos. A psicoterapia é também uma das coisas mais importantes para poder contornar os prejuízos causados pelo vício das redes sociais.
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Edição: Dani Rodrigues (MTBE 6757) e Neide Lu (MTBE 6466), Portal Fala Você Notícias