A violência política de gênero é um tipo de violência contra as mulheres que ocorre no âmbito político, especificamente contra mulheres que tentam transcender as barreiras que as impediam de exercer o direito ao mandato político. No entanto, trata-se de um fenômeno construído pela resistência masculina em relação à atuação das mulheres no âmbito político. E para discorrer, esclarecer e informar a sociedade guanambiense sobre esta realidade, a jornalista Neide Lu proporcionou uma entrevista informativa com a cientista política Hannah Maruci, que foi transmitida em tempo real pelo Instagram para o Fala Você Notícias desta terça-feira (9).
Principais desafios que impedem e desestimulam a representatividade feminina na participação ativa da política no Brasil
A cientista política Hannah Maruci foi questionada pela jornalista Neide Lu sobre quais fatores têm desestimulado a representatividade feminina na política do Brasil, bem como, ao fato de somente, há 90 anos atrás, a mulher ter conquistado o direito de se candidatar. A cientista Hannah respondeu, então, que são muitas as barreiras sociais que as impedem de ingressar e sobressaírem na política. Dentre elas, existe a ideia construída historicamente de que o espaço político não é um espaço para as mulheres ocuparem, um pensamento que, segundo Hannah foi ensinado pela sociedade como um todo, uma barreira que gera também a violência de gênero e de raça: “É justamente pelo entendimento de por este não ser o lugar das mulheres, quando elas estão lá ou quando elas ousam em entrar na política, participar, elas devem ser objeto de violência”, destacou.
Hannah pontuou também que uma outra barreira é a constitucional, que está instalada nas regras que regem o sistema político e eleitoral do país, marcadas por falhas, tanto em relação a criação de leis com o intuito de promover o incentivo e a participação efetiva das mulheres para repararem a desigualdade de gênero, que é histórica, quanto no cumprimento de leis que já existem mas que não são executadas: “Então, a gente tem, por exemplo, cotas de candidaturas para mulheres de 30% desde 37 que até hoje não foram cumpridas. A gente tem também cotas financiamento de 30% para mulheres e não houve este cumprimento da forma que deveria acontecer. Dentro do institucional, a gente vê, também, os partidos políticos reproduzindo uma estrutura que é machista, que é racista e que tende a deixar as mulheres excluídas deste processo. Candidaturas são construídas, elas não surgem do dia pra noite. Elas têm que ser tanto politicamente quanto financeiramente, e quem faz isso no Brasil, uma vez que não existe a possibilidade de candidatura avulsas, são os partidos políticos. E se eles não fazem este investimento, esta construção, chega na hora de lançar a candidatura, eles dizem que não tem candidatas mulheres capacitadas. Mas isso é porque vem de um histórico de não investimento, de não priorização destas candidaturas, destes quadros”, elucidou.
Pequenas mudanças diante do cenário da violência política de gênero
Ao falar sobre as conquistas das mulheres no âmbito político, a professora disse que nos últimos anos, vem crescendo a conscientização sobre a importância de nos representar na política, grupos que são marginalizados socialmente. Em relação a isto, ela aponta que este acontecimento vem crescendo não somente nos resultados, como também, no discurso. Para além disto, ela citou também que há algumas conquistas referentes a regras eleitorais, mas que, para ela, ainda não são suficientes: “Por exemplo, nestas eleições está valendo que 30% dos fundos eleitorais têm que ir para mulheres e que deve ter uma divisão igualitária, balanceada entre candidaturas de pessoas brancas e de pessoas negras, pra gente tentar buscar um pouco mais de igualdade racial também na política. Então, acho que ainda está muito longe para dizer que a gente tem grandes avanços, pois, a gente poderia estar muito a frente, o que a gente busca é a igualdade e a gente está muito longe disso, mas também, nós temos que fazer com que estes pequenos avanços realmente sejam efetivos”, afirmou.
Ainda, em relação as candidatas laranjas que são colocadas apenas para completar os 30% do quadro de políticos, ela citou: “Os partidos não investem nas candidaturas, em quadros políticos de mulheres da forma que deveriam, fora do período eleitoral e, quando chega no período eleitoral, eles precisam cumprir a regra dos 30% que ainda é pouco e, depois, dizem que não têm essas candidaturas viáveis. E por que não têm? Porque não construíram elas, porque não deram importância pra ter essas candidaturas ali. Só que eles precisam das mulheres, e as mulheres precisam saber disso, que não são somente elas que precisam do partido, o partido precisa delas. E o que eles acabam fazendo é: criando candidaturas que não queriam ser laranjas, que acreditam que estão ali realmente para competir, que estão ali realmente com projetos políticos que são lideranças comunitárias na maioria das vezes, e que, por isso, trazem sim, votos pra o partido. Só que eles não dão as condições para que elas façam uma campanha digna e, por isso, na prática, elas acabam sendo laranjas. Muitas vezes, é laranja aquela mulher que está ali pra competir, pra fazer sua campanha com o que dá, mas que o partido não investe nela e deixa ela totalmente sem recurso, então, é uma violência de política de gênero institucional praticada pelos partidos políticos, por todo aspecto político”, explicou. Em relação a isso, Hannah falou sobre a importância de entender ter uma conscientização social, buscando entender as regras e a importância de haver mais mulheres na política e de ter essas lideranças mulheres como candidatas viáveis, como também, uma fiscalização muito intensa.
Guia Prático para as Mulheres na Política e sua importância no combate à violência de gênero
Em relação ao Guia prático para as Mulheres na política – pela Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), lançado em 26 de julho, e escrito pela cientista política Hannah Maruci – ela explicou que se trata de um guia prático para as mulheres na política, não apenas candidatas, mas sim, para mulheres em qualquer momento da sua vida política, que se deparam com a violência política. Sendo assim, trata-se de um guia prático que ensina como as mulheres devem agir diante da violência política. Desta forma, ele trás orientações acerca: das definições da violência política de gênero e raça, bem como, em relação a como identificá-la e também sobre caminhos possíveis para combater este tipo de violência de forma simplificada e didática, em um formato de manual sobre estas questões. Contudo, ela frisou que este guia é construído a partir de depoimentos de mulheres que estão atuando na política e de mulheres em diferentes fases da política, pois, entendem que as soluções buscadas e o caminho construído no combate a violência política de gênero, devem ser constituídas a partir de situações que existem, porque as mulheres, vendo as situações de outras mulheres, elas podem se identificar e podem perceber que não estão passando por este tipo de violência sozinhas: “A gente entrevistou estas lideranças da Raps, e, os tipos de violência trazidos por elas, vão desde os mais sutis, mas não menos danosos, até os mais preocupantes em termos de ameaças a vida delas. Então, algumas mulheres eleitas relataram o silenciamento dentro da tribuna, a ridicularização, a ausência de apoio ao projeto delas, os comentários referentes ao corpo, ao visual, como forma de desestimar a ação política delas”, relatou.
Entretanto, Hannah Maruci, também falou sobre o sistema de apartheid político contra as mulheres, como forma de contribuição para que haja cada vez mais a ausência das mulheres na atuação política. Bem como, sobre como a falta de representação política fere a democracia brasileira, tendo como principal alvo os grupos minoritários sociais, como o das mulheres.
Dê um clique no vídeo ou no áudio e saiba o que Hannah falou sobre como a falta de representação política fere a democracia brasileira, bem como, sobre a existência de uma estrutura machista na sociedade e como ela reverbera na construção do pensamento social feminino e em relação as iniciativas que podem ser feitas para incentivar as mulheres a participar dos espaços políticos.
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Edição: Dani Rodrigues e Neide Lu (MTBE 6466), Portal Fala Você Notícias