Ao anunciar que deixará de publicar matérias jornalísticas na rede social Facebook, a Folha de S.Paulo confirmou uma tendência que já contagiou mais da metade dos 72 jornais, revistas e sites noticiosos do mundo inteiro que apostaram no projeto Instant News, lançado, em maio de 2015, pela maior rede social da internet .
Tudo indica que é o fim de uma aliança que desde o começo foi carregada de desconfianças e dúvidas porque na verdade sempre foi um casamento de interesses. A imprensa tradicional procurava ampliar seu público leitor e com ele as receitas de publicidade, enquanto o Facebook buscava incorporar qualidade ao seu serviço, na tentativa de superar sua imagem como rede de fofocas e fotos de animais de estimação.
Mas os quase três anos de existência do Instant News, a área do Facebook dedicada à publicação de matérias jornalísticas, acabaram num impasse, tudo por conta do fenômeno fake news. Da mesma forma que houve uma aliança de interesses, o que está acontecendo agora é um divórcio de interesses. O Facebook está empenhado em desfazer-se da imagem de rede responsável pela proliferação de notícias falsas e de cumplicidade com os estrategistas russos , enquanto os jornais perceberam que a audiência não cresceu como previam e menos ainda as receitas publicitárias.
Assim, volta à cena informativa a velha guerra surda, às vezes nem tanto, entre jornais e as redes sociais, onde os primeiros reclamam que Facebook e Google publicam matérias jornalísticas sem pagar direitos autorais, enquanto as redes alegam que são plataformas de tecnologia, que não produzem conteúdos noticiosos e só reproduzem o que a própria imprensa já publicou na internet.
É um confronto entre interesses comerciais divergentes onde cada lado procura levar vantagem. Imprensa e redes usam o que chamam de interesses do público de acordo com as suas conveniências. Os jornais lutam pela sobrevivência econômica e política de um modelo de negócios que está severamente ameaçado pelas transformações provocadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Já as redes sociais sabem que passado o impacto da descoberta de uma nova forma de relacionamento interpessoal via internet, haverá uma inevitável segmentação por interesses individuais, o que pode ser mortal para uma rede como Facebook, que se orgulha de ter mais de dois bilhões de usuários no mundo inteiro.
O que se delineia como uma fuga em massa dos jornais e revistas, ocorre semanas depois do Facebook anunciar uma reprogramação de seus algoritmos (robôs eletrônicos selecionadores de postagens) para beneficiar publicações locais e hiperlocais, bem como aumentar os espaços dedicados às mensagens de conteúdo familiar e interpessoal. É uma manobra editorial para tentar reduzir o volume de mensagens que podem ser associadas à desinformação, notícias falsas e operações de marketing visando objetivos políticos. O rótulo de “rede das fake news” é visto por Mark Zuckerberg, o criador e principal executivo, do Facebook como uma ameaça à confiança do público no meganegócio que ele criou em fevereiro de 2004. Observatório da Imprensa