Passeata do Luto à Luta foi realizada em Guanambi conclamando uma DEAM e efetividade nas políticas públicas; a motivação foi o homicídio duplo ocorrido na cidade

19 de dezembro de 2021

A Passeata do Luto à Luta aconteceu em Guanambi, neste sábado, 18, às 8h, com concentração na Casa de D. Dedé, percurso pelo Centro da cidade e encerramento em frente a 22ª Delegacia de Polícia de Guanambi. Familiares das vítimas Alcione Malheiros e Ana Júlia, assassinadas brutalmente no último dia 12/12, junto à Procuradoria da Mulher da Câmara de Vereadores de Guanambi, do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher – OAB Guanambi, com o apoio do 17º Batalhão de Polícia Militar foram às ruas conclamar:

  • Uma DEAM (Delegacia Especializada da Mulher) ao governo do Estado da Bahia;
  • A implantação do CRAM (Centro de Referência ao Atendimento à Mulher);
  • Fortalecer e ativar a rede educacional de Guanambi, pública e privada, ensino básico e universidades, para juntas inserir a desconstrução do machismo estrutural;
  • Um serviço de apoio às mulheres e famílias vítimas de violência;
  • O acompanhamento real sobre a violência provocada pelo machismo;
  • Que a rede de proteção à mulher tenha mais engajamento para cuidar das vítimas de violência, bem como seus familiares.

A presidente da Procuradoria da Mulher, vereadora Míria Paes, reforçou que a passeata será um marco histórico para Guanambi, “Ana Júlia e Alcione não serão apenas mais um número, como procuradora digo que a Procuradoria tem o objetivo de proteção e dar garantia às mulheres, principalmente contra a discriminação e violência, não vou me calar diante desse fato, que tantas mulheres morrem apenas pelo fato de ser mulher, não vamos nos calar, só vamos parar quando a DEAM estiver instalada em Guanambi”, afirma.

Míria Paes, presidente da Procuradoria

A presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher – OAB Guanambi, Aline Ladeia, levou a reflexão questionando todos a imaginarem em viver numa sociedade em que mulheres não pode andar sozinhas nas ruas, não pode usar roupas para prática de esportes, não podem se expor, se exibir e devem evitar chamar atenção. “Isso parece uma realidade do século 17? Mas não, essa é a realidade de Guanambi hoje! Nosso direito de liberdade está sendo limitado pelo medo. Depois do crime que vitimou Alcione e Ana Júlia, é esse o nosso sentimento. Somos, portanto, todas vítimas desse crime bárbaro”, pontua.

Aline reforça que a luta pelo direito das mulheres no Brasil sempre foi uma luta popular, “foi assim que conquistamos o direito de ir às escolas, à faculdade, o direito de voto, de escolher se trabalhamos fora de casa ou não, de participar ativamente da política e tantos outros direitos civis. Hoje, aqui, lutamos pela instalação da delegacia especializada da mulher em Guanambi, com estrutura que seja capaz de nos oferecer atendimento especializado e orientação adequada sobre os nossos direitos para que cada vez mais mulheres se sintam encorajadas a realizar denúncias, encerrando os ciclos violência que estão inseridas”.

Aline Ladeia, presidente da Comissão da Mulher OAB

Edésia Lisboa, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, indagou e apresentou uma realidade estarrecedora no estado e no Brasil em violência contra a mulher.

“Por que estamos aqui hoje? Os números não deixam dúvida quanto à gravidade da situação vivida por mulheres, independentemente de raça, classe social, idade, religião, cultura.

O MP-BA, ao todo foram 15.079 denúncias oferecidas pela Instituição na Bahia quanto a todos os tipos de crimes. Em 2020 o número total foi de 26.449 em todo o estado.

O Brasil é considerado o 5º país mais violento do mundo para as mulheres. A Bahia ocupa o 3º lugar entre os casos de feminicídio no país. Dados do Ministério Público da Bahia apontam um total de quase 5.000 casos de violência contra a mulher denunciadas à Justiça somente no primeiro semestre de 2021, o que representa um terço de todas as denúncias oferecidas pela instituição no estado da Bahia. Cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos no país, uma é estuprada a cada 11 minutos e uma é vítima de feminicídio a cada 90 minutos.

É imperioso a implementação de medidas imediatas e urgentes para garantir a sobrevivência de mulheres em uma sociedade onde predomina um machismo estrutural”, explana.

Edésia Lisboa, presidente do CMDDM

Ronaldo Soares, professor de história do Colégio Idalice Nunes, onde Ana Júlia estudava, emocionado se solidarizou com a família prestando homenagem à Ana  Julia, levando sua última prova de história que gostaria de entregar pra ela, criticou a nossa sociedade machista, misógina, patriarcal, que carrega na cultura, “a violência é da sociedade”, e pede “por favor, parem de matar às mulheres”.

Ronaldo Soares, professor de Ana Júlia

Késia Malheiros, irmã de Alcione e tia de Ana, cobrou atenção do governador da Bahia e dos deputados para à violência contra à mulher em nossa cidade, e disse que não vai descansar enquanto a DEAM não for instalada em nossa cidade.

Késia Malheiros, irmã da vítima do duplo homicídio

Além de populares, os vereadores Natanael Pretinho, Toni Ai Dento, Neto de Dim, Paulo Costa, o vice-prefeito, Arnaldo Azevedo Nall, a primeira dama Solange Coelho, representando o prefeito Nilo Coelho, o Ten. Cel. Arthur Mascarenhas, comandante do 17º BPM, Lajucy Donato, secretária de educação de Guanambi, marcaram presença apoiando o movimento.

   

No trajeto comerciantes e funcionários em suas lojas se manifestaram através da exibição de cartazes, faixas e adesivos com frases de combate à violência e apoio à família.

       

Em frente à Delegacia de Polícia de Guanambi, ponto de chegada

Finalização da Passeata com o Pai Nosso.

Motivação da passeata

A Passeata do Luto à Luta resultou após uma coletiva do Delegado Rhudson Barcelos, concedida à imprensa de Guanambi, no último dia 14, terça-feira, relatando como estava sendo apurando o duplo homicídio de mãe e filha, e dentre as suas colocações “pelo que ficou subentendido e a gente apurou até o momento, não houve premeditação. Ele não tinha a intenção de praticar o estupro específico com as vítimas. Foi uma questão de coincidência, quando ele saiu do trabalho, (…) se deparou com as duas, com aquelas roupas de malhação, de caminhada, obviamente chamando atenção. Ele disse que daí começou a ter desejo sexual e as seguiu. Passou por elas, estacionou e ficou esperando”.

Entre as justificativas para possível linha de investigação, o delegado Rhudson Barcelos afirmou que era, “entre aspas, plausível, um feminicidio diante de uma briga entre marido e mulher”. Questionado por qual recado deixaria para as mulheres para evitar que sejam vitimas, ele orientou que elas evitassem sair sozinhas ou em grupos de mulheres para prática de ciclismo nas rodovias, esporte muito comum na localidade.

As falas do delegado nas redes sociais indignaram mulheres e homens que na quarta-feira, 15, foram para frente da delegacia pedindo a saída do delegado do caso, e justiça.

No dia 16, o delegado coordenador da 22ª Coorpin, Dr. Clécio Magalhães, comunicou a saída do delegado do caso à família das vítimas, assumindo à investigação o delegado Giancarlo Soares, com reforço de uma delegada e do próprio coordenador.

Petição pública 

Nas redes sociais circula uma petição pública abaixo assinado da Sociedade Civil Organizada de Guanambi, colhendo assinaturas, pedindo a implantação, urgente, da DEAM em Guanambi, para ser entregue ao governador do estado, Rui Costa.

De acordo a Lei, mulheres vítimas de violência devem ser amparadas e orientadas sobre os seus direitos, devendo contar com o poder público para lhes assegurar o atendimento especializado e qualificado que lhes ofereça um grau de segurança capaz de estimular a realização de denúncias.

A petição é mais uma iniciativa da Procuradoria da Mulher, Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher – OAB Guanambi e familiares das vítimas.

Clique aqui e assine a Petição Pública

Toda imprensa Guanambiense, rádios, sites, blogs, influencers e TV digitais estão apoiando o movimento por justiça, instalação da DEAM e demais políticas públicas para combater a violência em Guanambi e região.

Edição: Neide Lu (MTBE 6466) / Portal Fala Você Notícias

Fotos: Ascom Míria Paes

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